| Descuidou-se
momentaneamente do bordado que fazia, provocando o desencontro entre
as carreiras miúdas de pequenos pontos. Eles, namorando-se
à distância, clamavam por um reparo estético
que os permitissem circundar juntos os globos idealizados pelos
dedos delicados. Rapidamente retirou a linha da agulha e pôs-se
a desfazer os pontos. O desejo de criar suspenso no ar, pairando
sobre seus olhos. A linha delicada escolhida em seus baús
mais íntimos deixava seus vestígios vermelhos sobre
o tecido de algodão. Na ânsia de se desfazer dos inconvenientes
e horrendos pontos, arrebentava os fios, que volitavam no ar, pousando
em seus cabelos, em suas vestes. Sentiu-se de repente imunda. Os
pontos perfeitos, executados dia a pós dia, com disciplina
e cuidado, perderam a luz diante do borrão vermelho, que
aumentava a cada golpe da agulha, de repente espada vingativa sobre
a linha delicada. Uma pequena distração e o desenho
criado com amor perdia a beleza e se desfazia ante seus olhos atônitos,
que, em todos aqueles anos de contínua criação,
nunca haviam se deparado com semelhante espetáculo de horror.
Acostumara-se aos belos resultados, ao tecido sempre receptivo,
e à linha dócil. À procura do que causara tamanho
transtorno e dor, encontrou ao fim um pequeno nó, que fizera
com que a agulha se desviasse, provocando a anomalia estética.
Enfiou sem mais demora a ponta de sua pequenina espada sob o repulsivo
empecilho entranhado no tecido. Parecia fazer parte agora da superfície
esfolada, sangrando fiapos de linha vermelhos. De nada adiantara.
Forçou ainda mais a agulha, que, arrancando o câncer
do tecido, levou juntou um fio de sua pele, que jorrou gotas vermelhas
sobre o desenho. Decidiu ser hora de parar e idealizar um novo bordado,
mas os pontos que permaneceram clamavam misericórdia, pedindo-a
para que insistisse naquele que já durava anos. Sabia ser
sua culpa toda a desgraça. Acreditara já dominar o
trabalho diário de fecundar o tecido. Pusera-se a observar
o céu pela janela entreaberta, oferecendo o rosto aos raios
que adentravam a sala, deixando que seus dedos corressem livres
sobre o bordado. Enganara-se ao pensar que dominava seus sentidos.
Como bordar e voar ao mesmo tempo? Percebeu que nunca errara porque
se entregara de corpo e alma àquele ofício de criar
e de se dar. Sentiu-se de repente cansada. Percebeu que existia
um nó dentro dela pedindo para ser desfeito. Nunca se preocupara
em bordar seus sentimentos, em unir os pequenos pontos que se acumulavam
em desordem, a cada batida do seu coração. Apenas
enganara-se. O descuido no bordado refletiu o que já existia
dentro dela há muito tempo. Pequenos nós formando
uma grande mancha. Lançou para o alto o bordado e saiu correndo
da sala. Lá fora o céu azul, sem nuvens. Abriu os
braços e começou a correr sem rumo entre as árvores
do campo, como à procura do sol que a beijava distante. Desenhou
no ar o mais lindo bordado de sua vida.
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