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Simone Santana
Descuido
2008
The Harvest - Vincent Van Gogh
Descuidou-se momentaneamente do bordado que fazia, provocando o desencontro entre as carreiras miúdas de pequenos pontos. Eles, namorando-se à distância, clamavam por um reparo estético que os permitissem circundar juntos os globos idealizados pelos dedos delicados. Rapidamente retirou a linha da agulha e pôs-se a desfazer os pontos. O desejo de criar suspenso no ar, pairando sobre seus olhos. A linha delicada escolhida em seus baús mais íntimos deixava seus vestígios vermelhos sobre o tecido de algodão. Na ânsia de se desfazer dos inconvenientes e horrendos pontos, arrebentava os fios, que volitavam no ar, pousando em seus cabelos, em suas vestes. Sentiu-se de repente imunda. Os pontos perfeitos, executados dia a pós dia, com disciplina e cuidado, perderam a luz diante do borrão vermelho, que aumentava a cada golpe da agulha, de repente espada vingativa sobre a linha delicada. Uma pequena distração e o desenho criado com amor perdia a beleza e se desfazia ante seus olhos atônitos, que, em todos aqueles anos de contínua criação, nunca haviam se deparado com semelhante espetáculo de horror. Acostumara-se aos belos resultados, ao tecido sempre receptivo, e à linha dócil. À procura do que causara tamanho transtorno e dor, encontrou ao fim um pequeno nó, que fizera com que a agulha se desviasse, provocando a anomalia estética. Enfiou sem mais demora a ponta de sua pequenina espada sob o repulsivo empecilho entranhado no tecido. Parecia fazer parte agora da superfície esfolada, sangrando fiapos de linha vermelhos. De nada adiantara. Forçou ainda mais a agulha, que, arrancando o câncer do tecido, levou juntou um fio de sua pele, que jorrou gotas vermelhas sobre o desenho. Decidiu ser hora de parar e idealizar um novo bordado, mas os pontos que permaneceram clamavam misericórdia, pedindo-a para que insistisse naquele que já durava anos. Sabia ser sua culpa toda a desgraça. Acreditara já dominar o trabalho diário de fecundar o tecido. Pusera-se a observar o céu pela janela entreaberta, oferecendo o rosto aos raios que adentravam a sala, deixando que seus dedos corressem livres sobre o bordado. Enganara-se ao pensar que dominava seus sentidos. Como bordar e voar ao mesmo tempo? Percebeu que nunca errara porque se entregara de corpo e alma àquele ofício de criar e de se dar. Sentiu-se de repente cansada. Percebeu que existia um nó dentro dela pedindo para ser desfeito. Nunca se preocupara em bordar seus sentimentos, em unir os pequenos pontos que se acumulavam em desordem, a cada batida do seu coração. Apenas enganara-se. O descuido no bordado refletiu o que já existia dentro dela há muito tempo. Pequenos nós formando uma grande mancha. Lançou para o alto o bordado e saiu correndo da sala. Lá fora o céu azul, sem nuvens. Abriu os braços e começou a correr sem rumo entre as árvores do campo, como à procura do sol que a beijava distante. Desenhou no ar o mais lindo bordado de sua vida.
 
Simone Santana
Simone Santana

Imagem "The Harvest - Vincent Van Gogh" foi retirada, e, está disponível em:
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.do.

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