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Marcello Blum
BLADE RUNNER: O FUTURO É CADA VEZ MAIS COMO ERA ANTIGAMENTE
2007/2008
Blade Runner

Em 1982, 25 anos atrás, Blade Runner foi um filme recebido friamente por público e crítica nos cinemas e com o passar dos anos foi sendo descoberto em VHS e finalmente em DVD até se tornar cultuado e reverenciado como um marco na ficção cientifica, teve inúmeros problemas para que sua força criativa visual e narrativa pudesse ser mostrada de forma integral e se tornasse a maior influência nos filmes, videoclipes e publicidade atuais. Pense no conceito cyberpunk visual da trilogia Matrix e verá como Blade Runner é relevante visual e conceitualmente. Finalmente, quem já assistiu pode rever e comparar as 4 versões deste clássico e quem ainda não viu, pode conhecer a versão definitiva. A Warner Home Video está lançando a edição comemorativa de 25 anos em DVD triplo, com a versão final (2007), DVD 1, DVD 2 - versão EUA (1982), versão internacional (1982) e versão do diretor (1992) e DVD 3 – documentário Dias Perigosos – Realizando Blade Runner. Vale a pena o investimento, já adquiri esse edição mais que especial deste grande filme.

"Blade Runner - O Caçador de Andróides"
Do diretor inglês Ridley Scott
Baseado no livro, 'Do Androids Dream of Electric Sheep?', de Philip Kendred Dick
O diretor inglês Ridley Scott conseguiu imprimir em "Blade Runner - O Caçador de Andróides" mais um salto qualitativo na ficção científica depois de seu ótimo filme anterior, "Alien - O 8° Passageiro" (1979). Aterrorizante e ao mesmo tempo apaixonante em sua mistura bem dosada de figurinos e atmosfera de policial noir dos anos 40 com alta tecnologia futura convivendo com a podridão de Los Angeles em 2019, Blade Runner custou cerca de 30 milhões de dólares, um orçamento extraordinário para a época (em 1977, Star Wars custou cerca de 10 milhões de dólares), mas o filme foi lançado com alterações impostas pelos executivos da produtora The Ladd Company e da distribuidora Warner Bros, que deixaram o diretor Scott e o autor da trilha sonora, o grego Vangelis, contrariados. Com roteiro baseado no romance "Do Androids Dream of Electric Sheep?" escrito em 1968 por Philip K. Dick, o filme foi considerado confuso e obscuro pelos executivos e mal recebido nas apresentações fechadas antes da pré-estréia.
Ridley Scott
Para deixar a história mais clara, editores da Warner incluiram um monólogo desnecessário depois da morte do replicante Batty e a narrativa final em off do final romântico de Harrison Ford com Sean Young num carro junto a cenas de sobrevôo de montanhas, sobras de cenas emprestadas de "O Iluminado" de Stanley Kubrick e cortou cenas à revelia do diretor; Harrison Ford se opôs à narração, mas foi obrigado a fazer por força contratual, assim como Ridley Scott também não tinha ainda autonomia contratual e financeira para barrar as adulterações em seu filme. Em protesto, o compositor Vangelis vetou o lançamento da sua trilha sonora original, mas não pode impedir que uma gravação por uma orquestra filarmônica da trilha sonora fosse lançada, incluindo o sucesso dos saxofones da inesquecível "Love Theme".

Mesmo com o sucesso que esta versão adulterada pelo "Ministério da Verdade" da Warner Bros, Ridley Scott sempre desejou em exibir a sua versão do filme, sem o final reconfortante imposto pelo estúdio para agradar mais público.

Ridley Scott
Por uma casualidade, em 1991, um estudante estagiário de cinema da UCLA descobriu uma cópia do master original de Scott sem as alterações em um arquivo da Warner Bros. Com uma nova remasterização de som e imagem, Blade Runner pôde ser finalmente relançado nos cinemas em 1992 a versão do diretor (Director’s Cut) e em 1994, o autor da trilha Vangelis lança sua trilha sonora original com músicas bônus. Como o diretor desejava, sua versão é mais seca, sombria, enigmática e filosófica e seu impacto narrativo e visual continua excelente.

Em 2007, Ridley Scott lança sua versão final (Final Cut) de Blade Runner e assim a apresenta: “Esta é a minha versão predileta do filme. Foi totalmente restaurada a partir do negativo original. E passou por um moderno processo digital intermediário de 4K que produziu uma imagem absolutamente linda. Supervisionei pessoalmente o processo e aprovei a transferência e a nova mixagem de som, feita com elementos originais das 6 pistas. Também fiz alguns ajustes e realces ao longo do filme. De todas as versões de Blade Runner, esta é a minha predileta. Espero que você concorde comigo.”

Os pontos mais enigmáticos na versão do diretor e final de Ridley Scott são as seqüências que insinuam que o policial Blade Runner (nome tomado de um romance de William S. Burroughs, no livro de K. Dick é um "bounty hunter") Rick Deckard (Harrison Ford) seria também um replicante com memória implantada, do qual a polícia sabia que para enfrentar e executar os replicantes rebeldes em igualdade, é necessário ser um deles. O chefe Bryant (M. Emmet Walsh) conta que existem 6 replicantes rebeldes da geração Nexus 6 para serem retirados de circulação: 3 homens e 3 mulheres. Obviamente, Roy Batty (Rutger Hauer) e Leon (Brion James) são homens; Pris (Darryl Hannah) e Zhora (Joanna Cassidy) são mulheres. Também diz que um deles está na Tyrell Corporation, sem identificar o sexo, mas podemos concluir que se trata de Rachael (Sean Young). Tudo leva a crer que o sexto replicante seja o próprio Deckard.

Ridley Scott
Ridley Scott
Blade Runner é um grande exemplo de como usar a tecnologia disponível na época à serviço de passar pela história e visual, uma projeção crítica e sombria sobre o fim do século XX e em relação ao futuro do século XXI, ao contrário de se preocupar com uma padronização estética, que em vários filmes seguintes de Sci-Fic influenciados tentaram imitar e não conseguiram. Trata-se da história de Rick Deckard, um caçador de andróides Replicantes Nexus 6 - máquinas quase perfeitas, super-homens e supermulheres - que aspiram viver na Terra, mas que devido a sua perfeição, foram programados para serem desativados em quatro anos, antes que pudessem adquirir emoções próprias e viessem a ser uma ameaça à humanidade. Por serem utilizados como escravos nas colônias em tarefas perigosas, os replicantes da Tyrell Corporation são um importante elo econômico na Terra. Em Novembro de 2019, a cidade de Los Angeles se torna um inferno superpopulacional, claustrofóbica e com chuva fina contínua. Desastres ecológicos, guerras nucleares e a própria degradação humana transformaram o planeta num lugar onde só sobrou a escória dos humanos que ainda não podem se mudar para as colônias interplanetárias fora da Terra, mostrando que o desenvolvimento tecnológico não é suficiente para evitar a decadência da sociedade moderna e um mundo sem valores próprios. O futuro de Blade Runner é nietzscheano e niilista e mostra que as corporações opressivas arrebentaram o planeta e passa a ser cada vez mais difícil ser humano, a maior luta é a espiritual contra o vazio tecnológico.
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No script de Blade Runner, os replicantes tem as falas e frases mais sensíveis e humanas. Quando o projetista genético J. F. Sebastian (William Sanderson) pede para Roy e Pris fazerem algo extraordinário para ele ver, Roy responde com ironia: "Não somos computadores, somos seres vivos. Pris: Penso, Sebastian, logo existo". Ao entrar na Tyrell Corporation, Roy comenta: "Não é fácil encarar seu próprio criador". Depois acrescenta furioso ao saber que seus 4 anos de vida não podem ser prolongados: "Eu quero mais vida, canalha!". Eldon Tyrell (Joe Turkel) lhe responde: "A luz que brilha o dobro arde a metade do tempo. E você ardeu com muito brilho, Roy. Comemore o tempo que você tem..." para depois ter seu crânio esmagado pelo replicante inconformado. Ao salvar Deckard de cair do alto de um prédio, Roy fala calmamente como que se despedindo: "Eu vi coisas que vocês não acreditariam (...) Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva... tempo de morrer".Em seguida, abaixa a cabeça, morre e liberta para voar a pomba branca que está segurando. No final, quando Deckard está deixando seu apartamento com a replicante Rachael, vê um unicórnio de origami que o policial Gaff (Edward James Olmos) deixou, como se tivesse poupado Rachael e um aviso que o sonho de Deckard com um unicórnio é uma lembrança implantada e se recorda das últimas palavras de Gaff: "Pena que ela não vai viver! Mas, afinal, quem vive?"
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DISTOPIAS DE PHILIP K. DICK
É oportunidade de se conhecer um pouco mais da obra do escritor estadunidense de ficção cientifica Philip Kendred Dick, falecido há 25 anos, em 02/03/1982, com pouco mais de 53 anos, pouco antes do lançamento de um dos melhores filmes baseados em sua obra, no caso, Blade Runner de Ridley Scott, adaptação de seu romance 'Do Androids Dream of Electric Sheep?' (1968).

Nascido em 16/12/1928 em Chicago, EUA, Philip K.Dick era um autor com interesses sempre voltados para a natureza da crença e da realidade psicológica. Seus personagens não são heróicos e sempre apresentam dúvidas mirabolantes em função de seu estado de humor. Sua produção relativamente grande, difere da maioria de seu gênero literário, porque revela uma grande inquietação metafísica. Os problemas religiosos e sociais são temas freqüentes em sua obra. A questão da realidade (alguns de seus protagonistas em suas histórias existem e não existem simultaneamente), o destino da humanidade perante o cosmos e os poderes parapsicológicos estão entre seus assuntos favoritos. De permeio, muita aventura espacial, muita imaginação na criação de situações e personagens dos mais surpreendentes.

Apesar de sua obra vir sendo cada vez mais valorizada, principalmente no cinema, em vida o autor era considerado do segundo escalão perto dos melhores escritores sci-fic de sua época. Philip K. Dick era respeitado por fãs de sci-fic e colegas escritores, embora as vendas das suas obras nunca tenham igualado as de escritores de ficção científica mais populares, como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Robert Heinlein e Frank Herbert. No entanto, durante a sua vida, as suas obras foram largamente ignoradas pelos críticos e leitores dos gêneros mais clássicos.

Philip Kendred Dick
Como não poderia deixar de ser, Philip K.Dick era um gênio atormentado e alucinado. Daqueles típicos hippies drogados dos anos 60. Enxergava raios de luz rosa e acreditava em reencarnações (inclusive tendo conversado pessoalmente com Deus em 1974) e conspirações globais. Californiano de formação, o autor diferenciava-se da maioria dos paranóicos pelo teor da sua obra. Dick escreveu 36 romances - alguns em quinze dias, durante delírios turbinados por anfetaminas - mais cinco historinhas curtas, produzidas no início de sua carreira, entre 1952 e 1956. Tecnicamente, sua ficção-científica não se aproximava da classe de um Arthur C. Clarke, estava mais para um estilo bem folhetinesco. Mas Dick sobreviveu ao tempo, superou sua geração graças aos temas abordados em seus livros. Há quarenta anos, o escritor discutia ética e experiências genéticas, liberdades individuais e problemas de identidade, controle de mentes e demais interferências humanas na ordem natural das coisas. O escritor era um visionário.

Philip K. Dick sofreu durante a sua vida vários episódios de angústia psicológica e esgotamentos nervosos, tendo chegado a ser diagnosticado como esquizofrênico no final da sua adolescência. Outros psicoterapeutas e psiquiatras viriam a fazer outros diagnósticos, incluindo o de que ele era perfeitamente são.

No início dos anos 50 Dick começou a publicar histórias nas revistas ‘Pulp’ de ficção científica da época a um ritmo alucinante. No seu apogeu criativo publicou 16 livros de ficção científica entre 1959 e 1964. Era um homem complexo e profundamente perturbado. Dado a perturbações psicossomáticas, sofria de agorafobia, depressão e tendências suicidas. Era um visionário religioso cuja teologia era articulada nas suas obras de ficção científica. Era um escritor de uma singularidade extraordinária, conseguiu criar um legado consistente e visionário que fez com que a sua influência se fizesse sentir na cultura contemporânea.

Muitas das experiências reais de Dick (foi abandonado pelo pai aos cinco anos de idade, assistiu à morte prematura das suas irmãs gêmeas recém-nascidas, além de casamentos desfeitos e problemas com drogas) serviram para construir uma personalidade pessimista. Em seus livros, o futuro sempre seria pior do que o tempo presente. A Los Angeles de Blade Runner - O Caçador de Andróides é fria, suja, escura e superpopulosa, era fiel ao pensamento do autor. O quarto imundo do cirurgião de olhos, exibido em Minority Report – A Nova Lei, de Steven Spielberg - 2002, provavelmente foi imaginado assim por Dick.

Nos livros, fica evidente o descrédito no governo, nas autoridades. Seu primeiro romance, Solar Lottery (1955), exibe um mundo comandado por lógica e números: os governantes mundiais são escolhidos numa sofisticada loteria. Por outro lado, há também a porção metafísica. No fim da carreira, Dick produziu textos autobiográficos fantasiosos, descreveu experiências com alienígenas e combates entre o Bem e o Mal, baseados em preceitos religiosos.

A consolidação veio somente depois da sua morte. Por mais que o trocadilho seja perigosíssimo, seus seguidores ostentam o orgulho de se denominarem "dickheads". Veneram uma personagem folclórica, suspeita de ter sofrido de esquizofrenia, mas capaz de imaginar coisas que hoje se tornaram reais, como a clonagem e os totalitarismos tecnológicos da vida.

Adaptadas ao cinema, suas obras tornaram-se cult-movies. Os dois exemplos mais célebres, Blade Runner e O Vingador do Futuro, serviram para impulsionar as carreiras dos diretores Ridley Scott e Paul Verhoeven. Mas, se o reconhecimento é merecido, a fama já causa alguns problemas. Com o tempo, adquirir o direito de seus textos tornou-se um investimento e tanto, quantia suficiente para inviabilizar inúmeros projetos cinematográficos. Suas últimas adaptações para o cinema foram The Paycheck - O Pagamento (2003), de John Woo e A Scanner Darkly - O Homem Duplo (2006), de Richard Linklater.

Características presentes nas obras de Philip K.Dick:

Falsas realidades – Dick mantém-se como o criador do mito da falsa realidade. As suas personagens confrontam-se freqüentemente com questões como “O que é real?”

Humano versus máquina – Dick questionava-se como seríamos capazes de reconhecer o autenticamente humano numa sociedade tecnológica. Viu a linha entre o humano e as máquinas tornar-se inevitavelmente tênue.

Entropia – Dick era obcecado pela maneira como as coisas se deterioram, fruto das suas experiências de abuso de drogas (prescritas), 5 casamentos e imaginação visionária.

Controle social – Dick sempre foi bastante paranóico. Chegou a acreditar que todas as tiranias políticas eram facetas de um opressor cósmico: a Black Iron Prison, um arquétipo intemporal que ele associava ao Império Romano.

Frases do escritor:

"Realidade é alguma coisa na qual quando você deixa de acreditar não vai embora." "Reality is that which, when you stop believing in it, doesn't go away."

"Abuso de drogas não é uma doença, é uma decisão, como a decisão de jogar-se em frente a um carro em movimento. Você não chamaria isso de uma doença, mas um erro de julgamento." "Drug misuse is not a disease, it is a decision, like the decision to step out in front of a moving car. You would call that not a disease, but an error of judgment."

"A dificuldade em ser educado é que leva muito tempo; gasta-se a melhor parte da vida e quando se está pronto, o que se sabe é que teria se beneficiado muito mais indo pescar bacalhaus." "The trouble with being educated is that it takes a long time; it uses up the better part of your life and when you are finished what you know is that you would have benefited more by going into banking."

"Realidade é algo que se recusa em ir embora mesmo quando deixo de acreditar nela." "Reality is whatever refuses to go away when I stop believing in it."

"Escritores de ficção científica, sinto dizer, realmente não sabem nada. Nós não podemos falar sobre ciência, porque nosso conhecimento dela é limitado e não oficial, e normalmente nossa ficção é terrível." "Science fiction writers, I am sorry to say, really do not know anything. We can't talk about science, because our knowledge of it is limited and unofficial, and usually our fiction is dreadful."

"A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras. Se você puder controlar o significado das palavras, você pode controlar as pessoas que têm que usar as palavras." "The basic tool for the manipulation of reality is the manipulation of words. If you can control the meaning of words, you can control the people who must use the words."

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